A Perda Que Fica
Reflexões sobre a perda gestacional, o luto e o amor que permanece.
Este artigo é um pouco diferente dos que partilhei anteriormente. Até agora, tenho escrito principalmente sobre cuidados neonatais, partilhando informações e experiências do meu trabalho como enfermeira neonatal.
Hoje, no entanto, quero partilhar algo mais pessoal. Algo que vivi não como enfermeira, mas como mãe.
Depois de passar por dois abortos espontâneos, comecei a compreender que a perda gestacional é algo que carregamos connosco, mesmo quando a vida continua à nossa volta.
Neste mês de outubro, em que se assinala o Dia Internacional de Sensibilização para a Perda Gestacional e Neonatal, quis partilhar algumas das minhas experiências e reflexões sobre como esta perda passa a fazer parte da nossa história, algo que levamos connosco para o resto da vida.
A vida não pára depois de uma perda
Uma das coisas de que me apercebi é que a vida continua, quer estejamos preparados ou não.
Continuam a existir responsabilidades, rotinas, conversas e tantas coisas do dia a dia que precisam de ser feitas. Com o tempo, voltamos a rir, a fazer planos, a aproveitar momentos com a família e a ter dias em que nos sentimos genuinamente felizes.
E, para quem vê de fora, pode parecer que tudo voltou ao normal. Mas alguma coisa mudou.
Só porque alguém está a sorrir, a trabalhar ou a seguir com a sua rotina, não significa que se tenha esquecido do que aconteceu.
Acho que, por vezes, as pessoas assumem que, porque parecemos estar bem, já ultrapassámos a perda. E talvez, de certa forma, tenhamos conseguido continuar com a nossa vida. Mas estou a aprender que continuar a viver e esquecer aquilo que perdemos são duas coisas muito diferentes.
Uma gravidez que terminou continuou a ser uma gravidez
Acho que isto pode ser difícil de compreender para quem nunca passou por uma perda gestacional.
Quando uma gravidez termina, não estamos apenas a sofrer pelo que aconteceu. Podemos também estar a viver o luto por tudo aquilo que já tínhamos começado a imaginar.
O momento em que vimos aquele teste de gravidez positivo. Os pensamentos sobre quem aquele pequeno ser poderia vir a ser. As mudanças que imaginávamos para a nossa família. O futuro que já começávamos a ver de uma forma diferente.
Não importa com quantas semanas a gravidez terminou. As esperanças e os sentimentos que existiam eram reais.
E, embora cada pessoa viva esta experiência de uma forma diferente, acredito que seja importante reconhecer que uma gravidez não precisa de atingir um determinado número de semanas para que a sua perda tenha importância.
Independentemente de quão cedo aquela gravidez terminou, era uma vida que alguém desejava, já amava e com a qual imaginava um futuro. E essa perda merece ser reconhecida.
Ter outros filhos não diminui a perda
Sou imensamente grata por ser mãe. A minha filha traz tanta felicidade à minha vida, e foram inúmeras as vezes em que me fez sorrir durante alguns dos meus dias mais difíceis.
Mas ser mãe de uma criança que está aqui comigo não torna os bebés que perdi menos importantes e estou a aprender que posso ser grata por tudo o que tenho e, ao mesmo tempo, sentir a dor daquilo que perdi.
Acho que isto é algo importante de recordar quando apoiamos pais que passaram por uma perda gestacional. Já ter filhos, ou vir a ter outros filhos no futuro, não substitui a gravidez que terminou.
Cada gravidez faz parte da história de alguém, e uma não apaga a outra.
Como podemos apoiar quem passou por uma perda
Não acredito que exista uma frase perfeita para dizer a alguém que passou por uma perda gestacional.
Por vezes, as pessoas simplesmente não sabem o que dizer, e eu compreendo. A perda gestacional pode ser um assunto difícil, principalmente quando existe o receio de dizer alguma coisa errada.
Mas, pessoalmente, acredito que o mais importante seja reconhecer que aquela perda aconteceu.
Não é preciso encontrar as palavras certas ou saber exatamente como a pessoa se está a sentir. Também não é necessário falar sobre o assunto em todas as conversas.
Por vezes, apoiar é simplesmente lembrar que aquela pessoa passou por algo muito significativo, mesmo que naquele dia pareça estar perfeitamente bem.
E compreender que o luto não tem prazo.
Alguém pode querer falar sobre a sua perda num dia e, no dia seguinte, preferir não tocar no assunto. Pode sentir-se à vontade para partilhar a sua experiência publicamente, mas ter dificuldade em falar sobre ela em privado. Pode parecer feliz e, ainda assim, carregar sentimentos que ninguém consegue ver.
Não existe uma forma certa de viver o luto, e o apoio que oferecemos deve respeitar essas diferenças.
Aprender a viver com a perda
Não quero que as minhas experiências de perda gestacional definam tudo aquilo que sou.
Continuo a ser mãe, companheira, enfermeira e uma pessoa com planos, sonhos, ambições e muitas coisas pelas quais esperar.
Quero aproveitar a minha vida, criar novas memórias e continuar a construir a família que sempre sonhei ter.
Mas também não quero fingir que aquelas gravidezes nunca aconteceram.
Aconteceram. Foram importantes para mim naquele momento e continuam a ser importantes hoje.
Por vezes, sinto que as pessoas esperam que eu volte a ser a Sofia feliz de antes. E vou ter dias bons e dias maus, como qualquer outra pessoa. Vou rir, aproveitar a vida e viver novos momentos felizes. Mas isso não significa que as memórias tenham desaparecido.
O amor que senti durante as minhas duas gravidezes, pelos dois bebés que nunca vou ter a oportunidade de conhecer, continua aqui. Está presente todos os dias, mesmo quando não falo sobre isso.
Carreguei duas pequenas vidas dentro de mim que, infelizmente, não conseguiram chegar até aqui. E, embora já não estejam fisicamente comigo, farão sempre parte de mim, de quem sou e da mãe em que me tornei.
Não preciso de estar triste todos os dias para me lembrar deles. E não preciso de deixar de ser feliz para que as suas vidas continuem a ter importância.
Não acredito que continuar a viver signifique deixar o nosso luto para trás. Por vezes, significa simplesmente aprender a viver com o que aconteceu, enquanto continuamos a aproveitar tudo aquilo que a vida ainda tem para nos oferecer.
E talvez seja isto que eu mais gostaria que as pessoas compreendessem sobre a perda gestacional.
Podemos ser felizes. Podemos rir. Podemos ter outros filhos e fazer planos para o futuro. E, ao mesmo tempo, continuar a lembrar-nos dos bebés que perdemos.
Esses sentimentos não se contradizem.
Todos eles fazem parte da nossa história.


